4) A Catedral do Mar e as Mulheres Excluídas




               

           
            Há mulheres excluídas em sua história de vida?

Às vezes, o passo decisivo e essencial para solução de uma questão pessoal “insolúvel”, pode ser o reconhecimento de uma pessoa ou situação excluída na família há gerações. A partir dos personagens femininos do livro A Catedral do Mar vamos mostrar algumas das situações que excluem as mulheres até hoje. Abaixo de cada personagem citamos seus dramas no romance e os enredos reais que elas podem representar em nossa vida.

Quero ficar no teu corpo, Feito tatuagem, Que é para ter Coragem

As exclusões aparecem nas constelações familiares em diversos movimentos. Um deles é esquecer de uma pessoa por trás de um símbolo religioso. Não é uma regra, nem pode ser, mas uma alegoria, como uma tatuagem, por exemplo, pode representar um parente ou pessoa renegada que queremos incluir com amor, na própria pele. “Quero ficar no teu corpo, Feito tatuagem, Que é pra te dar coragem, Pra seguir viagem,  Quando a noite vem” (Tatuagem[i] – Chico Buarque). Ao reconhecermos o que foi negado ganhamos ânimo de ultrapassar uma dor inexplicável, um obstáculo “intransponível” como intuem os artistas.

Os Símbolos Religiosos Femininos

Em alguns movimentos sistêmicos, o reconhecimento da pessoa por trás do nome de batismo, homenageando uma santa, apazígua toda uma família. Este nome pode ter sido dado em tributo a uma deidade, ou por alguma promessa de vida. Ou ao contrário, se há algum desprezo pela crença dos outros (como rejeição de santas como emblema de devoção). Se a constelação nos conduzir para uma mulher por trás da Santa homenageada, há uma ou várias mulheres precisando ser vistas e reverenciadas na história familiar. Mas não é só isso, como veremos mais abaixo.

            As Mulheres no Livro A Catedral do Mar (este romance virou série na Netflix)

No livro A Catedral do Mar, do escritor espanhol Ildefonso Falcones, há uma história subjacente de mulheres excluídas. Na linha de frente do romance somos capturados pela luta e sofrimentos dos camponeses na época medieval, século XIV,  tentando sua liberdade em Barcelona. Por meio dos fascinantes personagens masculinos, Arnau e seu pai Bernart Estanyol, saímos de um mundo arbitrário, imposto pelos senhores dos feudos, para outro com mais possibilidades, mas não menos desafiante.

Nas entrelinhas do enredo, no entanto, diversas mulheres são submetidas a terríveis condições, se aliando à luta dos protagonistas, sem, contudo, serem reconhecidas como gente, mas sutilmente como a Virgem Maria. Talvez, em cada pedra carregada para a construção da Igreja do povo, a via crucies dos operários erguendo pedra a pedra um monumento à Virgem, tenha um lugar para estas mulheres. É verdade que duas personagens são grandes inimigas dos "mocinhos", mas não a causa das perseguições que sofreram, como parece à princípio. Elas também tinham pouco ou nenhum recurso para serem livres naquela época, mesmo em posição mais privilegiada.

            Neste trajeto, as mulheres deixam de ser vistas como mãe para virarem prostitutas, deixam de ser o amor de um homem e passam a ser propriedade de outro, deixam de ter escolhas para servirem aos interesses comerciais e de poder de outros. E passam de protegida para a culpada dos processos da inquisição. Vamos ver que os estigmatizados se tornam invisíveis ou símbolos distantes, que guardam a história de uma pessoa de carne e osso que precisa ser olhada e incluída.

O que estas personagens podem revelar sobre nós mesmos?

Todos aqueles criminalizados, assassinados, menosprezados e “culpados”, na maioria das vezes só encontram lugar em algo sublime, contrariando nossos julgamentos, como uma imagem santa ou em uma religião. Oramos ou meditamos com estas figuras, sem nos darmos conta que, talvez, em alguns casos, elas guardam alguém para ser amado. Em determinadas dinâmicas das constelações familiares damos um passo essencial quando integramos os excluídos (desumanizados) ao sistema familiar. Não com pena, mas reverência pela coragem que tiveram ao enfrentar destino tão desafiador.

            As noções arquetípicas de Lilith,  Eva e a Serpente do velho e novo testamento estão também bem representados neste romance premiado, mas não vou falar sobre isso aqui, embora seja bem claro para quem conhece estes arquétipos. 

            As Mulheres em Catedral do Mar e em Nossa Vida (Tem spoiler).

Ao final de cada personagem apresentada são feitas perguntas, em verde, para lembrarmos de alguém de carne e osso que pode estar excluída em nossa família direta ou ancestral.

1)   Francesca Esteve – esposa de Bernart Estanyol  e mãe de Arnau.

Bernart Estanyol era um bom homem de coração honrado. Abriu mão de sua herança para que a irmã Guiamona pudesse pagar o 1) dote do casamento e 2) ainda sustentar o futuro marido na cidade de Barcelona.

Mais tarde ele conhece a camponesa Francesca Esteve por intermédio do pai da moça que paga o dote dela. Os dois se apaixonam e se casam. No dia do casamento ela é estuprada pelo dono do feudo Llorenç de Bellera, dono da terra onde a família morava. Só a mãe dela tenta ostensivamente defende-la, embora o noivo tenha tentado o que podia.

 Bernart é forçado a ter relações com Francesca logo em seguida, mesmo ensanguentada e ferida. O camponês se vê forçado a ter relações ou ela seria estuprada por um dos cavaleiros do senhor feudal. A justificativa era 1. os senhores feudais podiam, por lei, tirar a virgindade de quem morasse em suas terras; 2. e para que não ficasse claro que o filho gerado era do dono do feudo, outro homem devia tomar a mulher logo em seguida.  

  • 1      Ainda hoje há pessoas que acham que podem violar uma mulher?
  • 2     Um marido pode cometer estupro também?

Desta união violenta e forçada nasce Arnau com a marca dos Estanyol no canto do olho. Ele é filho legítimo de Bernart. Isto questiona a virilidade do senhor feudal que passa a perseguir Francesca, Bernart e Arnau ainda bebê.

Francesca é forçada a ser ama de leite do filho do Senhor Feudal, homem que a estuprou. Arnau, ainda bebê, é raptado junto com ela, embora ela não possa mais vê-lo. Bernart descobre onde ele está e salva o filho da morte, porque a mãe não podia chegar até seu bebê para amamenta-lo, já que era estuprada no caminho. Mais tarde, por todos estes motivos, ela é desprezada e vira prostituta.

Bernart foge para a cidade com seu bebê, vivendo escondidos. Ele começa a trabalhar para o marido de Guiomana, Grao Puig, seu cunhado, até conseguir ficar 1 ano e 1 dia em Barcelona, quando teria permissão legal de ficar na cidade. Como Bernart matou, sem querer, um homem para salvar o seu filho, ele é procurado para ser enforcado. Isso faz com que fique trabalhando para o cunhado durante anos, sendo Arnau criado na casa grande, junto com os primos, na esperança de ter outro destino.

Em sua família, alguma mulher foi estuprada e considerada culpada pelo crime que sofreu? Esta história veio à tona ou é um segredo (como não poder falar sobre isso com ninguém)? Alguma mulher trabalhou como prostituta para se manter viva ou aos seus filhos? Alguém a jugou por isso? Alguém a agradeceu?

2)   A Virgem Maria como símbolo da mulher excluída

                 “De que me serve uma mãe que mora no céu?”

Quando o pré-adolescente Arnau descobre que sua mãe não está mais viva, ao menos na versão que o pai contou, este substitui a presença dela pela imagem da Virgem Maria. (As dores, geralmente, viram segredos na família, excluindo ainda mais aquele que sofreu). O menino pensa, “de que serve uma mãe que mora no Céu? ”

Neste livro ela serve para manter a memória das mulheres excluídas.

A partir daí a Virgem passa a ser uma das principais personagens do romance. Desde a vocação[ii] de Arnau que vem da sua devoção à santa, até a sua ligação com o padre que encabeça a construção da “igreja do povo, Santa Maria do Mar” na Catalunha, passando pela a amizade com Joan e a construção da Igreja, a Virgem consola os personagens mais sofridos do livro.

3)   A prostituta: polaridade excluída

Ao longo do livro, as mulheres mais rejeitadas se tornam prostitutas. E, para proteger a quem amam, negam a sua existência. Francesca, prostituta e acusada de bruxaria, nega o parentesco com Arnau para que ele não fosse condenado pela inquisição.

Mais tarde, quase ao final do épico, vemos a Virgem Maria ser alçada ao topo da Catedral do Mar, como se todo o caminho do protagonista, agora com mais de sessenta anos, fosse a busca de um lugar de honra para a sua mãe “morta”. E talvez para todas as mulheres excluídas.

Os dois arquétipos da Santa e da Prostituta se polarizam não só neste livro, mas na vida real. Um destes polos está em um pedestal imaculado, inalcançável. O outro está nas sombras da invisibilidade de todas as chagas negadas.  Entre um e outro há uma pessoa de carne e osso que não pode contar a sua história para poder salvar os descendentes ou não ser julgada. Ou porque é excluída.

4)   Guiomana – tia de Arnau e irmã de Bernart

Guiomana é como a segunda mãe para Arnau. Ela morre de tristeza por perder Guiamón, seu filho mais novo. Arnau ainda jovem é acusado de ser o culpado pela morte do primo. Ela morre sabendo que o sobrinho é inocente, embora não possa mais protege-lo.

Na sua família há uma tia que cuidou do filho/a de um irmão ou irmã, precocemente morto? Ela não foi a mãe perfeita, mas manteve este filho vivo com todo o seu esforço e ainda não foi reconhecida pelos seus serviços à vida? Há alguma uma tutora para ser honrada?


5)   Habiba - a ama que ajuda a criar Arnau e os filhos de Guiomana

Habiba é muito cuidadosa e amorosa com todos os filhos e sobrinho de Guiomana e Grau Puig. Margarida, a filha mais velha do casal acusa Arnau, criança, de ser o culpado deles terem fugido para o lado de fora da casa. O filho mais novo do casal morre por conta disso. Puig culpa a ama pelo ocorrido. Bernart tenta protege-la, mas o patrão açoita a escrava, estendida com braços abertos e nua, como Jesus na Cruz, até sua morte na frente de todos, inclusive de Arnau.

É a terceira figura materna que tem um destino difícil na vida do pequeno protagonista.

Em sua história ancestral houve mulheres que amamentaram filhos que não eram seus? Amas ou empregadas que cuidaram com amor profundo dos filhos dos patrões ou senhoras de escravos? Há alguém para agradecer que nunca foi visto e, ao contrário, foi punido?

6)   Joana – a mãe de Joan, o melhor amigo de Arnau

Joan, o melhor amigo de Arnau, depois irmão adotivo dele, nunca viu o rosto da mãe. Todo dia ele vai até um casebre pequeno com uma pequena janela de grade, por onde sua mãe Joana acaricia a sua cabeça.

(A mulher além de não poder escolher com quem casar, se tivesse um relacionamento extraconjugal seria trancafiada pelo marido, com respaldo da lei.)


A ecologista Lara Moutinho da Costa teve uma sacada brilhante sobre esta parte do livro. Estávamos eu, ela e o Jun Shimada conversando sobre este filme e as constelações, quando ela nos lembrou sobre a tromba da mãe do Dumbo, acariciando e embalando o seu filhote. A elefanta estava encarcerada, sem acesso ao pequeno, porque se revoltou contra a prisão e maus tratos do circo.

Se a sua história preferida da infância é a do Dumbo, talvez uma mulher da sua família ancestral pode ter sido punida ou trancafiada em casa, pelo simples fato de querer ser livre para escolher os seus parceiros. Ou alguma esposa teve um marido muito ciumento que a castigou muito. Pode também ser um pai que fez alienação parental falando mal da mãe para os filhos. A alienação é uma prisão invisível que mantém as crianças afastadas do pai ou mãe esculachados.

A infidelidade (feminina) na sua família é julgada e punida? Com exclusão? Você condenou a sua mãe por ter sido infiel ao teu pai? Ou ao seu pai pela infidelidade a tua mãe? Há algum homem brutal e ciumento que encarcerou, mesmo que pelo medo, sua esposa em casa? Há alguma moça que casou com quem não queria por imposição paterna? Um pai fez alienação parental justificando a proibição de acessar a mãe por conta da infidelidade dela (ou ao contrário)?


 Dumbo - desenho de Wat Disney 
Na placa da prisão da mãe de Dumbo está escrito PERIGO em inglês.






7)   Margarida – prima de Arnau e inimiga dele.

Uma das vilãs do livro é uma menina com menos de 14 anos. Não é a crueldade dos Feudos, não é a crueldade da Inquisição, não é a barbaridade dos homens sobre as mulheres, que fazem dezenas deles carregarem pedras para construir a Igreja do Povo tendo como motivação o amor à mãe excluída projetado na Virgem Maria. É uma adolescente. As traições e perfídias neste livro são quase todas femininas, como Lilith e a Serpente no velho e novo testamento. Elas também, as mulheres más, fazem o jovem Arnau mais forte em direção ao seu sonho de erguer a igreja e se tornar livre.

Elas representam um velho padrão de culpar as mulheres pelo mal no mundo. Tudo bem, há situações nas quais precisamos colocar limites em alguns comportamentos abusivos de mãe e pai. Mas daí em diante, a toxidade não é mais deles é das nossas expectativas irrealistas.

Tua mãe é uma bruxa? Você tem uma mãe tóxica? Ah?! A tua irmã que é um monstro? É mesmo? Quem te fez demonizar assim a sua mãe ou as mulheres? Elas mesmas? Entendo. Sinto muito! Talvez seja hora de ser uma boa mãe para você! Assumir o teu caminho sem culpar ela (s) por tudo o que deu errado com você. Se não consegue, tome o floral WILLOW + WALNUT e busca um bom psicanalista para sair do domínio dela. Peça ajuda! Sozinho/a, às vezes, é impossível.


8)   Aledis – o Primeiro amor de Arnau Adulto

A bela Aledis é o primeiro e grande amor de Arnau. Ela é forçada pelo pai a casar com um homem rico e velho. Como ela inicia um romance clandestino com Arnau é condenada a viver como a mãe de Joan, a Joana, presa em um cubículo. Sua irmã Alesta a salva, mas seu destino é virar prostituta e, futuramente junto com a mãe de Arnau, negar o seu amor por ele para que o protagonista seja feliz.

Há uma mulher que foi o primeiro amor de um pai, avô ou bisavô em sua família? Ela é respeitada ou uma piada na família? Acusam-na de atrocidades, sem saber de fato da versão dela da história? Há alguma mulher casada à força em sua família que tinha um outro grande amor? Há alguma mulher que fez algo muito bom para a família, mas debocham ou  falam mal dela? Seu marido teve um primeiro grande amor? A respeitam?


9)   María - 1ª Esposa de Arnau – os dois são forçados a casar.

Arnau também é forçado a casar e não consegue se entregar para a boa esposa María, que o ama profundamente. Ele é amante de Aledis. Isto causa uma culpa mortal nele e uma dor imensa na esposa, que acaba morrendo durante a peste negra.

Há casamento forçado em sua família? Há amores não correspondidos em um casamento, embora houvesse muito respeito? Há uma primeira esposa morta antes do teu pai, avô ou bisavô ter encontrado a sua mãe, avó ou bisavó? Ou a sua mãe, avó ou bisavó é a primeira esposa morta que ninguém mais se lembra? Houve vontade de que um dos conjunges morresse para se livrar de um casamento infeliz? Há uma culpa em nós que nos cega de ver as vítimas dos nossos atos, fazendo a gente sentir pena de nós mesmos, como Arnau nesta fase do romance?

10) Raquel - menina Judia que Arnau salvou

As crianças Raquel e seu irmão Hasdai são salvos por Arnau (adulto) em uma perseguição contra os judeus. Ele se torna amigo do pai das crianças. Esta amizade dura a vida toda, o que leva a inquisição a perguntar se a Raquel, já adulta, e Arnau têm relações carnais. Se sim, ele será condenado porque ela, por conta de sua religião, é considerada impura.

Esta personagem e os dramas em relação a ela nos remetem ao que Bert Hellinger chama de Comunidade de Destino: Os teus ancestrais têm alguma ligação com outro grupo de pessoas por ele ter sido muito importante para a manutenção da vida da sua família ou vice-versa? Ou causou danos a uma outra família (ter escravos, por exemplo)? Ou sua família foi prejudicada por alguém (roubo de sócios)?

Uma mulher (da sua ou de outra família) foi considerada indigna de casar com um homem por causa de classe, raça, credo ou outro preconceito (vice-versa também)?

11) Elionor - 2ª Esposa de Arnau – sua Grande Inimiga

(Lilith queria ficar por cima, então foi expulsa. Criaram a Eva, mais obediente.)

Mais uma mulher é a grande inimiga de Arnau. Ela e ele imploraram para não se casarem, mas os interesses comerciais e bélicos dos poderosos impuseram a união. Toda maldade que a megera faz é para se libertar daquela aliança humilhante para ela. Falsa, interesseira, raivosa e traiçoeira, encontra seu destino nas chamas do inferno.

O Llorenç que estuprou a Francesca, morre de velhice... a vida é injusta, eu sei, mas as mulheres são queimadas mesmo. Será que Elionor não tem um lugar no coração da Virgem Maria, como o cangaceiro Severino teve em Alto da Compadecida[iii]?

Tem alguma mulher desobediente que foi expulsa de casa? Tem alguma namorada, esposa, noiva que teu pai, avô, bisavô deu um fora porque ela era forte, livre, poderosa? Tem alguma mulher bem má em sua família? Ela tem um lugar no coração da Virgem? E no teu? Nem se você soubesse os antecedentes? Ter um lugar no coração não é perdão, é poder pertencer.

12) Mar – “filha adotiva de Arnau” que se apaixona por ele

Arnau decide ser o protetor da pequena moradora de rua, a Mar, quem tem a Virgem Maria como sua mãe adotiva também. Irmãos de sangue em seu destino de orfandade e separados pela diferença de idade e status social, constroem uma relação de amor profundo, que com o tempo catalisa todos os fantasmas de Arnau.

A princípio o carisma daquela menina valente e a bondade do atual homem de negócios Arnau fortalecem os laços entre eles. Nas entrelinhas vemos que se dependesse de Arnau, ela não sofreria como todas as mulheres em sua vida sofreram. Amoroso, corajoso, inteligente e forte, o tutor se dedica à Mar para que tenha um futuro melhor. A moça cresce e começa a deseja-lo como homem, sem ter coragem de romper a barreira posta por ele.

Graças à vingança, ganância, ciúmes e inveja de Margarida e Elionor, junto com as distorções religiosas do agora padre Joan, melhor amigo de Arnau, ela é forçada a casar com o homem que a estupra. Por lei, naqueles tempos, se um homem pegar uma mulher a força é enforcado, mas se casar com ela, é absolvido.

Arnau não consegue defende-la. "Exatamente" como seu pai não conseguiu defender Francesca. Além de estar casado com Elionor, que tramou o estupro junto com o padre Joan, se for contra o casamento, pensa que empurrará Mar para um destino terrível como aconteceu com sua mãe e todas as mulheres da época..

Todo o drama das mulheres na vida de Arnau se condensam neste dilema moral que a lei da época lhes impunha. Ele, de repente, é o algoz de sua mãe em todas as decisões que tomar.

1.  Se escolher libertar a jovem daquele casamento, ela será marcada por toda a vida como uma mulher sem valor e seu destino será a prostituição.
2.   Se fizer ela casar com aquele homem mais velho, como aconteceu com Aledis, seu primeiro amor, ou com a mãe de Joan, um dos responsáveis por Mar estar nesta situação diabólica, ele se tornará como todos aqueles que maltrataram as mães excluídas e o seu primeiro amor.
3.  E se escolhe dar a moça em casamento para o velho que é também o estuprador, sem saber, impõe sobre Mar o destino de sua mãe, de ser estuprada sempre.

E aí entra o que o escritor israelense Amos Oz fala sobre as gradações do mal. Com medo de causarmos mal, não olhamos suas nuanças e nos mantemos distantes, com as mãos limpas. Mas se temos coragem de olhar, e precisamos escolher, o menor mal deve ser o escolhido.

Um dos males, como mostrará o final do romance (não vou contar), não era tão mal assim.

Há alguma mulher que foi forçada a ter relações sexuais com o marido? Há mulheres estupradas dentro ou fora do casamento? O Carisma (roupas, jeito, alegria) femininos foram usados como justificativa para abusos? Você sabe que há gradações do mal? O que faz diante dele?

13. Maria, Mar, Mãe. A décima terceira bruxa não é convidada para festa do rei.

Em todo este épico catalão, o destino e os dotes das mulheres foram a causa motriz de cada pedra que Bernart, Arnau, e a maioria dos personagens homens carregaram para conquista da liberdade, ou para construir a Igreja do Povo, local onde todos podem fazer sua reverência à Virgem Maria. Arnau encarna uma nova visão de mundo e um novo homem. Uma nova masculinidade. Um mundo onde a mulher e o homem, com menos preconceitos, têm mais liberdade e igualdade de direitos. 

A sua mãe, sua primeira esposa María e seu futuro amor Mar encarnam 3 dos 4 arquétipos femininos que se cruzam criando um centro. O Quarto está sempre escondido, como a décima terceira bruxa que não cabe na mesa de doze lugares. Esta é a excluída. Ou o quarto é o Mistério, onde todas as mulheres são abraçadas e acolhidas pela Virgem, mesmo que ainda não sejam vistas nem sentidas.


Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem

E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta,
Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes (Tatuagem – Chico Buarque)






[ii] Vocação é Emaranhamento familiar? Olha estes dois textos. Este e este.
[iii] Peça de Ariano Suassuna que virou um filmaço de Guel Arraes. Severino é um cangaceiro cruel que consegue o perdão da Virgem quando se descobre os antecedentes: seus pais pobres foram mortos, injustamente, pela polícia, bem na sua frente.

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